Entenda como é feita a tradução da Bíblia

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Se você já foi a uma livraria para comprar uma bíblia, deve ter ficado perdido com tantas versões. Além do material de estudo, existem diferentes traduções. Você já parou para pensar como é feita a tradução da Bíblia, ou porque existem diferentes traduções de um mesmo texto? Neste estudo, vamos abordar esta curiosidade que passa desapercebido pela maioria de nós. Para o cristão, é importante compreender como as escrituras são traduzidas para conseguirmos responder questionamentos de pessoas que criticam e duvidam de nossa fé. Compreender os diferentes tipos de tradução é um bom conhecimento que podemos adquirir para fortalecer nossa fé.

O conceito básico de tradução é transferir uma mensagem, seja escrita ou falada, de um idioma para outro. A função básica da tradução é tornar possível que esta mensagem seja compreendida por seus receptores. Por muitos anos, a função de tradutor foi muito útil. Inclusive, hoje este ofício possui uma função primordial na comunicação do homem. Uma das profissões mais antigas de que se há registro, o tradutor tem a função de realizar a interlocução entre mensageiro e receptor da mensagem. Fazer este serviço parece fácil, mas existe uma questão muito importante no trabalho de tradução. Nem sempre o que o mensageiro diz é imediatamente compreendido pelo receptor após a tradução. Isso porque, por exemplo, ditados, expressões, conceitos e outros tipos de conhecimentos de quem envia a mensagem não coincidem nos conhecimentos de quem recebe a mensagem.



Um dos filósofos e teólogos mais conhecidos quando o assunto é tradução da bíblia é o alemão Friedrich Schleiermacher. Para ilustrar bem este conceito, o filósofo definiu o trabalho de tradução da seguinte forma: “ou o tradutor deixa o escritor quieto em seu canto e leva o leitor até ele, ou o tradutor deixa o leitor quieto e leva o escritor até ele”. O que ele queria dizer é que o trabalho de tradução da bíblia pode funcionar, basicamente de duas formas. A primeira opção seria traduzir os escritos da forma mais fiel possível, forçando o leitor a compreender o manuscrito. A segunda opção é adaptar as escrituras para que o leitor possa compreender segundo seus conhecimentos, sua cultura, sua época etc.

Tradução formal

Também conhecida como tradução literal, a tradução formal tem como método de trabalho seguir os textos originais da forma mais fiel possível . Neste caso, as adaptações gramaticais e a mensagem em si é praticamente imutável. Este tipo de tradução nos faz compreender melhor os aspectos de seus escritos, sua cultura, sua forma de pensar e seu ambiente. No caso da bíblia, a tradução formal nos remete ao mundo antigo. Por outro lado, a compreensão de diversas passagens bíblicas fica mais difícil. Um leigo, alguém que não tem profundo conhecimento antropológico do tempo e pessoa que escreveu o texto, não vai compreender inúmeras passagens.

Quando uma tradução é feita por equivalência formal, usa-se termos semelhantes e palavras com funções gramaticais iguais, ou seja, verbo por verbo, substantivo por substantivo. As palavras são consideradas quase que individualmente, com exceções para termos e palavras que não há tradução individual. As versões mais conhecidas de tradução da bíblia por equivalência formal são as bíblias Almeida e King James.

Tradução dinâmica

A outra forma de tradução é a chamada por equivalência dinâmica, ou funcional. Neste caso, o tradutor se esforça para que a passagem fique a mais clara possível para o leitor. Neste caso, a tradução da bíblia é feita levando em consideração a cultura e ambiente do leitor, por isso, algumas adaptações são feitas e algumas expressões são adaptadas. O maior cuidado, neste caso, é que a interpretação não fique distorcida ou diferente do que seria do texto original. As bíblias nas versões Viva e linguagem de hoje são exemplos clássicos da tradução feita por equivalência dinâmica. Poderíamos dizer que a bíblia na Nova Versão Internacional tende a seguir por este caminho também, embora fique mais em um meio termo.

Comparações

Vamos ler Salmos 16:5 nas versões Almeida Revisada e Corrigida (ARC) e na Nova Tradução na Linguagem de Hoje (NTLH).

  • Versão Almeida – O Senhor é a porção da minha herança e do meu cálice; tu sustentas a minha sorte.
  • Linguagem de hoje – Tu, Senhor Deus, és tudo o que tenho. O meu futuro está nas tuas mãos; tu diriges a minha vida

Outro trecho bem interessante é Salmos 119:83

  • Almeida – Pois estou como odre na fumaça; contudo não me esqueço dos teus estatutos.
  • Linguagem de hoje- Embora eu seja como uma vasilha inútil, não me esqueço dos teus decretos.

Como pudemos ver, na maioria das vezes, de uma forma ou de outra podemos compreender a essência do texto. No entanto, alguns críticos analisam que muitas traduções para a linguagem moderna desvaloriza o texto e retira muita essência de seus significados e poesia. A tradução da bíblia, para eles, perde muito de sua essência com as versões mais modernas, o que pode levar a profecias e doutrinas, por exemplo, distorcidas ou mal compreendidas.

No texto acima, de Salmos 119:83, devemos ressaltar que odre não era uma vasilha, mas sim a pele ressecada de um animal, utilizado para armazenar líquidos. Quando a pele ficava ressecada, era utilizada para tapar buracos nas tendas. Normalmente, colocava-se a fogueira (que aquecia a tenda) na direção deste retalho feito com a pele do animal (o odre). Por tanto, o significado deste versículo é muito mais dramático e forte em sua tradução formal do que em sua tradução dinâmica.

Da mesma forma, quando Jesus disse que não se coloca vinho novo em odres velhos, ele nos ensina algo que só podemos compreender se realmente soubermos o que é um odre. A tradução por vasilhas pode perder um pouco seu significado, pois vasilhas velhas, ou novas, se comportam iguais com a fermentação do vinho. Já o odre velho sim se rompe, porque é couro; e o couro velho fica ressecado e se rompe com a fermentação do vinho. Existe uma diferença muito maior de odres novos e velhos do que de vasilhas novas ou velhas.

Os críticos das traduções dinâmicas também acreditam que essas traduções tornam as pessoas cada vez mais preguiçosas, pois não se esforçam para compreender o real sentido do que estão lendo.

Já os tradutores dinâmicos defendem que não há mal algum em tornar a linguagem fácil e acessível a todos os leitores. Os mais cultos podem optar pelas escrituras de tradução formal, e as pessoas que não tiveram tanto acesso aos estudos podem adquirir as traduções modernas, podendo optar por traduções mais literais com o tempo, depois que tiver compreensão real das escrituras. Além disso, uma bíblia lida por uma criança, por exemplo, é melhor compreendida se for uma tradução dinâmica.

Para finalizar, ressaltamos que, na prática, não existe traduções 100% formais ou 100% dinâmicas. A versão King James possui, aproximadamente, 95% de seu texto feito por tradução formal, cerca de 5% precisa ser traduzido de maneira dinâmica para termos o mínimo de compreensão. Já a versão na linguagem de hoje (NTLH), possui 85% de seu texto traduzido de forma dinâmica, ou seja, 15% da bíblia NTLH ainda é de tradução formal (literal).

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